

O papel do jornalista de viagem ainda é indispensável? Em um cenário dominado por reels, stories e métricas de engajamento, a pergunta deixou de ser provocação e passou a circular com naturalidade entre assessores, destinos e profissionais do setor. Se a influência está nas redes, onde fica o jornalismo?
Para o jornalista Márcio Diniz, a resposta passa por uma palavra que não saiu de cena: credibilidade. Com mais de 30 anos de carreira e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, Estadão e Catraca Livre, Márcio acompanhou a migração do impresso para o digital e, mais recentemente, a consolidação dos influenciadores nas estratégias de turismo.
“Hoje, pelo menos 90% do conteúdo está no online. O impresso diminuiu muito. Mas isso não significa que o jornalista perdeu relevância”, afirma.
A discussão, segundo ele, é sobre função, e não resume à substituição de um pelo outro.
Nos últimos anos, destinos turísticos passaram a investir fortemente em criadores de conteúdo com grandes audiências. Perfis com 600 mil, 1 milhão ou até 2 milhões de seguidores passaram a ser presença frequente em viagens patrocinadas. Mas há uma diferença estrutural entre os formatos.
Segundo Márcio, a press trip voltada para influenciadores costuma priorizar o imediatismo. Sendo assim, o conteúdo é publicado rapidamente, com grande alcance, mas vida útil curta, já que stories desaparecem em 24 horas. O assunto, muitas vezes, “morre” na mesma semana.
Já a press trip com jornalistas tem outro objetivo, e é aí que o papel do jornalista de viagem se torna estratégico. “O destino quer que aquele conteúdo vire matéria. Que saia em um portal, em uma revista, em um veículo ranqueado. Quando alguém pesquisar sobre aquele hotel ou aquele restaurante, vai encontrar a informação ali, organizada, contextualizada.”, explica Márcio.

Márcio Diniz e Raquel Pryzant estiveram juntos em press trip para o Chile em fevereiro de 2026
A lógica é diferente, porque o jornalista produz conteúdo pensado para durar, com apuração, contextualização e estratégia de SEO. Por isso, o material continua sendo encontrado meses ou até anos depois, reforçando a autoridade do destino.
O profissional observa que, inclusive, alguns destinos vêm reduzindo o número de participantes nas viagens e priorizando profissionais que possam viver experiências alinhadas com a linha editorial do veículo. Dessa forma, em algumas experiências recentes, não havia influenciadores convidados, apenas jornalistas.
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Para ele, o jornalista nunca deixou de ser um influenciador, a diferença está na forma que isso acontece.
“O jornalista influencia a partir da informação. Ele pega um fato e transmite da forma mais fiel possível aos seus leitores, com credibilidade.”
Enquanto muitos criadores trabalham com performance, engajamento e linguagem pessoal, o jornalista constrói autoridade com base em consistência, apuração e responsabilidade editorial.
Isso não significa que as fronteiras não estejam se misturando. Muitos jornalistas hoje também produzem para redes sociais, aparecem em vídeo e constroem marca pessoal. Mas, no centro da atividade, permanece o compromisso com a informação.
Parece que estamos sempre discutindo sobre o futuro do jornalismo, não é? E o Márcio, de certa forma, concorda. Segundo ele, o mercado vive um momento, novamente, de ajuste.
Destinos entendem que visibilidade é importante, mas permanência também é. Um post pode gerar impacto imediato, uma matéria bem ranqueada gera busca, referência e decisão de compra ao longo do tempo.
No fim, não se trata de escolher entre jornalista ou influenciador, mas de compreender que cada perfil cumpre uma função diferente dentro da estratégia de comunicação de um destino.
Quando o foco é informação estruturada, contextualização e memória digital, o jornalista de viagem segue sendo peça-chave.
O SOLA Talks é o encontro online promovido pelo SOLA para discutir os bastidores do jornalismo de viagem, mercado editorial, press trips e tendências do turismo.
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