Cultura da Argentina: curiosidades, crenças e histórias de Salta e Jujuy

10 oportunidades da Worldpackers para fazer trabalho social com famílias e crianças
13 de março de 2019
sola-no-mundo-hostelworld-certo
Coluna Sola no Mundo no blog da Hostelworld™
14 de março de 2019

Cultura da Argentina: curiosidades, crenças e histórias de Salta e Jujuy

Tempo de leitura: 7 minutos
P_20180806_185419

A cultura do norte da Argentina está esperando por você! Embarque agora em uma viagem por histórias, crenças e paisagens nas províncias de Salta e Jujuy.

Salta e Jujuy são duas províncias do extremo norte da Argentina. A partir delas fica mais rápido cruzar para Bolívia do que voltar para a capital, Buenos Aires.

A fronteira com o Chile é totalmente marcada pela Cordilheira dos Andes, que confere paisagens estonteantes e costumes únicos.

Jujuy e Salta mostram para os viajantes que a cultura da Argentina vai muito além da cidade dos porteños. Para me ajudar com a particularidade da história dos povos andinos,chamei Darío Blanco, viajante e pesquisador que conheci em Tilcara em julho de 2018.

1. A culinária norteña na cultura da Argentina

As comidas de Salta e Jujuy têm muito em comum. Caçarolas de barro com ensopados de batatas, cenouras, cebolas e carnes. Muito milho e pão. Comidas pensadas para toda a família e feitas com o que dá na terra. Grãos como lentilhas e feijões são cozidos com linguiças para mais sabor.
Você pode encontrar as milanesas, os assados e as empanadas de Buenos Aires também no norte, mas sempre com tempero norteño próprio

O Api

Eu nunca tinha ouvido falar, mas o Api é uma bebida roxa feita de milho. Se toma quente, normalmente pela manhã. O chá espesso é  feito da mistura do milho roxo (maíz morado) em pó, com canela, cravo e açúcar. Uma grande panela com Api, água fervendo e limão é servida nos mercados e valem por uma refeição completa.

 

O Lomo

O Lomo saltado é um picadinho de carne com influência chinesa servido com arroz e batata frita. Eu chamaria de PF, mas os argentinos vão ficar devendo o nosso feijão e a farofa. Esse prato se tornou muito comum em Salta e em Jujuy.

O Locro

O Locro Crioulo é uma mistura de feijão branco, diferentes cortes de carne, milho, batata, abóbora e pimentão. O modo de preparo é semelhante a nossa feijoada, mas a comparação por esse caminho gera frustração. O acompanhamento é pão e o feijão branco deixa o prato mais leve.

O Tamal e a Humita

O Tamal é uma massa de milho recheada com carne ou vegetais. A Humita é a mesma massa sem recheio que por vezes leva queijo de cabra. Eu provei e não tenho medo de dizer: é pamonha!

Tortillas a la parrilla

Tá, isso não tem no Brasil. A tortilla a la parrilla, ou tortilla de rescolto, é uma massa de farinha, manteiga e sal feita na brasa. Jamón e queso (presunto e queijo), albahaca (tipo pesto), salame e carne são alguns dos sabores. As tortillas a la parillasão como empanadas gigantes e podem ser encontradas em qualquer esquina nas cidades da província de Jujuy.

Empanadas jujeñas x salteñas

Por toda a Argentina se come empanadas, mas existe uma disputa antiga entre o posto de “a melhor da Argentina” onde Salta e Jujuy competem.

A diferença é que as empanadas salteñas tradicionais são fritase os restaurantes e barraquinhas guardam uma série de segredos. Já as empanadas de Jujuy são assadas. As duas são recheadas de carne picada e batata.

A carne de Lhama

As Lhamas foram domesticadas pelos Incas e hoje são animais de estimação dos povos do norte da Argentina. Porém, além de ajudar com o transporte e com sua lã, elas também fazem parte da sopa. Com a carne de lhama são feitas linguiças, ensopados e sanduíches em Jujuy e Salta.

2. As festas do norte na cultura da Argentina

As tradições dos povos originários, como o culto à Pachamama, mãe terra, ao deus sol Inti e outras dádivas da natureza foram misturadas com o catolicismo da Espanha desde a época da colonização.

É por isso que hoje é impossível imaginar as duas crenças separadas. Pude conhecer um pueblo isolado entre as montanhas, onde moram um total 200 pessoas. Mesmo assim, eles não faltavam na igreja nenhum domingo. As festas são muito ricas, com muitas misturas e poucas explicações.

É fácil sentir a fé, a devoção e os agradecimentos, é difícil entender pra quem vai tudo isso. Nesse aspecto, me senti em casa.

O Inti Raimi

Inti Raymi em Quechua significa festa do deus sol. É uma cerimônia Inca realizada a cada solstício de inverno, em junho. O nascer do sol nesta data representa uma renovação espiritual.

Em Huacalera, povoado na província de Jujuy, os moradores levam mates e cobertores para esperar o nascer do sol.

“O sol é muito importante, além de nos dar energia diretamente, ele ilumina as plantas que consumimos e assim seguimos nos nutrindo de sua energia” explica Darío Blanco, pesquisador de campo da cosmovisão andina.

tucu-sola-no-mundo-povos-andinos-turma

A festa de Pachamama

Agosto é o mês da Mãe Terra. Estendi minha viagem para ver de perto uma celebração tradicional. Quando cheguei em Humahuaca encontrei diversas apachetas, que são morros de oferenda com vinhos, presentes e sementes. Durante uma celebração a noite, moradores da região cantaram e fizeram oferendas para Pacha. Na data é comum agradecer e pedir uma boa colheita para o próximo ano.

Carnaval del Diablo

Um boneco em forma de diabo que representa o sol é desenterrado em Uquia, cidade da província de Jujuy. A loucura é liberada com ele. A tradição e a fé se misturam nas ruas onde comparsas mascarados jogam farinha, confete e dançam o dia inteiro. A comitiva diabólica é toda convidada para comer o quanto quiser e beber até cair nas casas dos moradores. O carnaval de Jujuy reúne viajantes do mundo todo, que também querem se vestir de capeta.

3. As danças do norte na cultura da Argentina

Diferente do tango, dança que nasceu com os imigrantes europeus nos conventillos de Buenos Aires, as danças do norte da Argentina tem uma pegada mais tropical sem perder a tradição. A maioria delas é feita para casais em grandes festas, onde uma mesma coreografia é repetida algumas vezes.

Peña Folclórica

Uma Peña Folclórica é uma reunião, uma celebração com música e dança. Diferente da vida noturna argentina comum, que começa em geral mais tarde que no Brasil, as Peñas Folclóricas começam a partir das 19 horas e contam com jantar. Flautas, violões e tambores são indispensáveis para uma Peña. Evento norteño imperdível.

O Quarteto

O Quarteto nasceu na cidade de Córdoba com a imigração de italianos e espanhóis. Uma das origens possíveis do nome são os quatro instrumentos básicos para que a dança aconteça: violino, piano, acordeon e baixo. Seu ritmo é parecido ao merengue e é muito animado. Esse foi um dos gêneros que originou a cena tropical de Buenos Aires, hoje chamada de Bailanta.

A Chacarera

A Chacarera é uma dança tradicional de Santiago del Estero que vai muito além do movimento. É uma dança sobre sua terra e seu povo. Seja simples, dupla, trinca ou del monte, junto com a chacarera vem todo o folclore da região e a cultura da argentina. A Chacarera não é tão comum como em Santiago, mas representa o norte na cultura da Argentina.

4. Os símbolos da cultura de Salta e Jujuy

As lojas, muros e hostels do norte da argentina são marcados por desenhos, frases e objetos que vão muito além do aspecto estético. A bandeira e a cruz andina são sagradas e passam uma mensagem política e histórica da região. Muitos símbolos da cultura da Argentina e dos povos andinos foram perdidos com o tempo, mas outros seguem muito fortes no dia a dia da cidade

A Chacana

Talvez o símbolo mais emblemático. Os quatro lados da cruz andina contém as quatro estações do ano, os quatro elementos e os quatro pontos cardeais. Em quechua, seu nome significa “caminho para o divino” ou “escada”. O centro simboliza o sol e também a cidade de Cusco. Cada um de seus quatro lados tem três significados:

  • Lado dos três mundos:

Kay Pacha: Nosso mundo, o presente.

Hana Pacha: Mundo dos deuses, o futuro.

Urin Pacha: Mundo dos espíritos, o passado.

  • Lado dos três animais:

Condor: paz, ar.

Puma: força, terra.

Serpente: inteligência, água.

  • Lado dos três valores:

Trabalhar.

Aprender.

Amar.

  • Lado dos três sistemas:

Aini: ajuda o próximo.

Minka: ajuda o coletivo.

Mita: ajuda a sociedade.

 

Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *