Seu Dai da Chapada Diamantina

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Seu Dai da Chapada Diamantina

Tempo de leitura: 1 minuto
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Seu Dai nasceu no Capão e nesse Vale da Chapada Diamantina, todo mundo era um pouco garimpeiro.

Contou da vida nas tocas em uma época que se fazia uma caverna na montanha de casa. Lá o fogão era fogueira, o chuveiro cachoeira e a tv, um radinho de pilha. Uma vez por semana um garimpeiro da família era escolhido para descer toda a trilha até Seabra, vender alguns pequenos diamantes e fazer uma bela feira. A única motivação para retornar era a promessa de mudar de vida ou uma bela refeição com tatu assado.

Seu Dai nunca viu onça mas sabe que tem, a do lombo preto, não a grandona pintada. Sabe por já ter sentido o bafo e pelas vezes que seus cachorros entraram na toca com o rabo entre as pernas. O maior diamante que ele já encontrou tinha seis quilates e rendeu um bom negócio fechado alguns dias antes de se saber que o garimpo seria proibido.

O povo só falava nisso e Seu Dai, na época, só Dai, foi para São Paulo. Trabalhou por anos em uma pastelaria que fica em frente a estação da luz e é comandada por um casal de chineses. Viu que a ganancia também era o combustível da capital e seis por meia dúzia valiam mais no Capão. Voltou e fez seu nome. O primeiro da região a dirigir um carro próprio. E ele ainda está lá, estacionado. Uma imensa caminhonete laranja com histórias empoeiradas na caçamba.

Sua geração foi a última do garimpo pois quando seu filho nasceu já não podia. Não pode procurar, mas se algum diamante tiver restado na trilha é ele quem vai encontrar. Inevitável herança de uma família que abriu muitos caminhos e batizou cachoeiras, como a da purificação.

Lá no camping, Seu Dai separou por três dias uma jaca dura para me mostrar, a melhor que há. Mas foi devorada todas as vezes, antes do meu retorno. Foi assim que ele decidiu me ensinar a arte de encontrá-la sozinha, guiada pelo som de batidinhas na casca. Autonomia suficiente para seguir meu caminho sem medo de jaca verde.

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Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

4 Comentários

  1. João Lucas disse:

    Muito massa, já me fui vezes e não sabia metade, grato e que venham outras tantas boas informações.

  2. Márcio Cirne de Genaro disse:

    Parece bom, só não sei como entrar em contato para fica lá =/

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