Mariama e o coração, histórias e lutas de uma refugiada da Guiné

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Mariama e o coração, histórias e lutas de uma refugiada da Guiné

Tempo de leitura: 3 minutos

“A morte chega a qualquer hora e momento, e a vida, ninguém sabe onde vai se acabar.”

Assim Mariama desembarcou na rodoviária do Tietê em São Paulo depois de uma longa viagem. A maior de sua vida. Veio refugiada da Guiné para morar no Brasil com pouco dinheiro mas com seu dom de sentir a música e de encantar com sua dança.

Antes de começar, relembra toda a ajuda que recebeu nessa jornada que começa quando um amigo francês, que conhecia sua companhia de dança africana, apresentou a ideia do Brasil a Mariama e continua com uma Senhora, da qual nunca mais se teve notícia, que a ajudou a comer e ir ao banheiro nas paradas de ônibus de Fortaleza até São Paulo. Mariama anotou, com sua ajuda, como escrever o nosso Bom Dia, aprendendo na prática, o que leu no Alcorão sobre ter o coração como guia e fé, para coisas inimagináveis acontecerem.

Tudo que ela sabia sobre o nosso país era o nome de um jogador, Fenômeno. Mas descobriu que tampouco sabíamos do dela. Sempre que perguntada sobre a fome na África respondia sem cansar, que só poderia falar sobre o seu país e que a pobreza de lá é diferente da que existe aqui. Lá ninguém dorme na rua. Nem mesmo um louco. E dava a certeza de que todos seriam bem recebidos lá, enquanto era questionada aqui, sobre a data que pretendia voltar. “A Guiné tem tudo, só é mal governada.”

Desde aquele novembro, de consciência negra e de desembarcar em São Paulo, nada nunca foi fácil. A cada dia do mês repetia a ladainha “onde tem dificuldade, um dia vai ser facilidade e onde tem facilidade, um dia, vai chegar a dificuldade”. E assim se passaram dez anos.

A vida não é nada, ela concordou e disse: Sorri, fica feliz, coração aberto. E paciência, como a Terra. Aqui dançamos e ela está calma. Andamos e ela está tranquila. Batemos nela para construir os prédios que dormimos à noite depois de um dia de trabalho e ela permanece, esperando, até o momento em que entraremos nela. Quando esse dia chegar, vamos justificar todas as coisas que aqui fizemos, neste lugar que nunca vai se acabar. E assim como nosso Maomé, Jesus também ensinou que: Se você planta milho, milho vai sair e se plantar feijão vai colher feijão.

Depois se emputeceu ao falar sobre um assalto e sobre os políticos corruptos, se desculpou e contou uma história.

No começo do mundo, o diabo era obediente a deus, até um dia, que por ciúme, armou um rompante para destroná-lo. Foi expulso do céu e trouxe a Terra este sentimento. Uma pessoa com ciúme pode matar. Ciúme de homem e mulher, de querer algo que o outro tem e tantos outros. Se as pessoas soubessem que não é possível plantar milho e colher feijão o mundo seria diferente.

Foi a viagem de sua vida, também, por ter aprendido o real significado do respeito. Quando você se respeita, você respeita todo mundo. Entre nós não existe diferença além daquela que o nosso coração mostra e nossa alma não mente. O que está dentro podemos ver sem explicar. E ela bem sabia, que no momento certo, um sorriso lindo brotaria daquele sofrimento. Como no dia que eu a conheci, iluminada na Orquestra Mundana Refugi e depois, ensinando seus passos em uma aula de dança no litoral da Bahia.

Uma vez por ano, entre Março e Julho, Mariama monta um grupo para conhecer Guiné. Convida quem gosta de dançar, de cantar ou “só” de conhecer lugares novos.

 

Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

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