Icamiabas, as filhas do Rio Amazonas

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Zé do Cação, o pescador de dias nublados
26 de abril de 2019

Icamiabas, as filhas do Rio Amazonas

Tempo de leitura: 6 minutos

Nas docas de Itacoatiara grande parte da cidade fitava o horizonte acima do rio. Inutilmente, buscavam algum traço do menino. O pequeno navio patrulha da marinha, na vastidão do Amazonas, não era de se apostar. Seu Poró, arrependido, madrugou na tempestade com gosto de cachaça vencida no peito. Depois choramingou aos céus por seu neto e filho, como se ainda pudesse pedir alguma coisa. Naquela manhã quente e desesperada, assim que pai e filho foram resgatados, Poró gastou seu último desejo, misteriosamente.

“Tem o bolo de macaxeira, tem a tapioquinha, ainda tem o cafézinho, ainda tem o queijinho, ainda tem o bolo.”

Às cinco da manhã, vendedores acordam sem cerimônia os mais de trezentos passageiros dormidos em redes de cores vivas. Anunciam em coro seus produtos matutinos percorrendo os três andares metálicos da embarcação até que o capitão dê partida aos motores. Diferente dos vendedores, nós, passageiros, não podemos descer nas docas de cada parada.

Já era dia no Golfinho do Mar II, barco regional que sai de Manaus e passa por Itacoatiara, Parintins e Óbidos até Belém. Nesta grande e caudalosa estrada, as viagens são medidas em dias, não em horas. Os passageiros, entregues ao tempo, passam as tardes deitados no azedume úmido das redes de pano. Nos corredores, o vento é constante e o chão, sempre molhado. A cada parada, novos chinelos vão colorindo o chão de terra.

Onze da manhã é a hora do almoço e às cinco da tarde, começa a fila do jantar. Depois de dois dias, o mesmo cheiro, da mesma comida, já não abre o apetite. Aryane Santos comprou um misto quente. Em seus vinte anos, era a primeira vez no barco. Seus olhos verdes traziam medo e saudade da filha que deixara com a irmã.

Aryane Santos retocando a maquiagem

Do outro lado das redes, Brunna Andrade tentava abrir uma grande marmita de isopor enquanto arrumava seus dois filhos. O pequeno Thalles Gabriel não ficava quieto e Aline Gabriele, que cabe no antebraço, era o motivo da viagem. Brunna atravessava o Amazonas para apresentar a recém nascida ao pai, limpador de terrenos em Jacareacanga.

Limpador de terrenos é eufemismo para madeireiro, que por sua vez, é um nome forte para os filhos da floresta que nem o exército e o Ibama juntos conseguem educar. O dinheiro da madeira não é muito para quem corta, mas para muitos, a opção carrega menos sangue que o tráfico de coca. Os cabelos pretos longos e os olhos levemente puxados de Brunna são característicos do povo Munduruku. Seu sangue misturado tem herança, mas a última índia da família foi sua avó e dela pouco se lembrava.

Onde o marido de Brunna mora, de forma improvisada, índios fogem da serra elétrica e os madeireiros, do helicóptero do Ibama. Mas caça também luta na floresta. Dia desses, no barracão, Brunna preparava pacas à lenha para o almoço dos filhos quando salvou Thalles, que brincava distraído, dos dentes afiados de um porco do mato.

Brunna Andrade com Thalles Gabriel no Golfinho do Mar II

O sol laranja invadiu o Golfinho do Mar II e ninguém mais tomou banho. Nenhum sinal de internet ou de vida fora do barco. O bar começou a vender mais cerveja e a música ficou mais alta. Passageiros que estavam na rede apareciam pela primeira vez rumo ao convés superior. O tempo estava quente e perfeito para ver o pôr do sol.

Quatro mulheres subiram as escadas rindo alto e absolutamente todos pararam o que faziam, que não era muito, para acompanhá-las. A mais alta, magra e musculosa, Priscilla Mollinary, animava as outras. Sambava, rebolava e ria. Quando o vento levantava seu vestido, suas mãos escondiam o volume que ainda carregava dentro da calcinha preta, última lembrança do tempo em que chamava-se Sebastião Soares.

Priscilla é rainha bicampeã do carnaval de Parintins e durante a preparação para o título de Rainha Gay da Mocidade Independente de Aparecida, um dia sem dançar é um dia perdido. Deixara entre as redes seu bem mais precioso, uma fantasia repleta de penas e pedras que a levaria ao pódio, a fama e algum dia, ao exterior. “Minha vida é corrida, foi corrida para mim e assim cheguei onde eu estou” tudo vale pelo sonho que persegue desde os 16 anos, quando começou a sambar entre gringos, na famosa Festa do Boi.

Priscilla Mollinary no barco regional

Priscilla se considera uma garota de sorte e apesar de tudo tem pais maravilhosos que a acompanham em concursos e não são como outros pais, que não aceitam filhos gays. Não deve nada a ninguém, é dona de sua vida e decidiu curtir um pouco a festa que se armava, mas não tanto, sua rede a esperava para uma noite de rainha.

Cai a noite nas margens do Amazonas que passava furioso a boroeste. As luzes azuis da embarcação se acenderam e com elas, o tecnobrega e a dança das meninas. Patriciane se destaca não só pela beleza, mas pelo olhar perdido de quem coloca a vida em balanço. Estendia sem vontade seu copo plástico para que meninos sem barba derramassem uísque barato. Esperavam, sem sorte, um sorriso de volta.

Tudo nela era falso. Do cabelo loiro e liso à marquinha de biquini. Sua maquiagem repassada tinha um cheiro forte que todos os homens de Parintins sabiam o gosto. Seu irmão, que pôde estudar, cansou dos comentários sobre a gostosa da Patriciane. A ela, só coube ser incansável.

Eram os gemidos dos homens de uma noite ou as ordens de um só, pelo resto da vida. Por isso embarcou. Deixou sua filha em Parintins para conhecer outras camas. Começando aquela noite, as doze horas, na porta da cabine do comandante. Eram dez e ainda restavam 120 minutos para mais uma decisão. Se jogar da popa do Golfinho do Mar II e virar Amazonas ou virar mais um copo e ir trabalhar.

“Tem o bolo de macaxeira, tem a tapioquinha, ainda tem o cafézinho, ainda tem o queijinho, ainda tem o bolo.” Novos vendedores anunciavam mais uma manhã desde a escada de portaló.

Santarém se aproximava lentamente e tudo que havia passado na noite anterior, foi apagado com o dia. A partir dali, o Amazonas deixaria seus fiéis passageiros no Tapajós, de águas cristalinas e praias de areia branca. A despedida foi antecipada e as redes coloridas foram desarmadas, uma a uma. Das pequenas caixinhas de som bem posicionadas, ouvimos na voz do capitão os agradecimentos pela preferência e um convite, para uma próxima viagem.

As filhas do Amazonas lutam diariamente como suas antepassadas, Icamiabas, arqueiras nuas. Quando Francisco de Orellana se atreveu desbravar a Amazônia buscando ouro, voltou para Espanha tentando esquecer o encontro com as guerreiras de uma tribo composta exclusivamente por mulheres. Coube a Frei Gaspar de Carvajal comparar tais mulheres brasileiras sem maridos, armadas até os dentes, com as Amazonas da mitologia grega, nomeando posteriormente o rio mais caudaloso do planeta.

Tais índias altas escolhiam onde e quando queriam a companhia dos Guacaris, convidando os índios para uma festa em nome de Iaci, a lua. Retribuiam a boa companhia na beira do rio com um amuleto de sorte, o Muiraquitã, que resolveria qualquer situação, por mais desesperadora que fosse, misteriosamente. Com o pequeno sapo moldado da argila verde da Amazônia no peito, os índios Guacaris partiam contentes, com novos desejos, esperando a próxima lua.

Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

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