O golpe da santa na aldeia Fulni-ô de Pernambuco

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O golpe da santa na aldeia Fulni-ô de Pernambuco

Tempo de leitura: 2 minutos
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Foto: André Rodrigo Pacheco

Essa história começa logo depois da invasão européia no Brasil, quando diversos povos que habitavam a região do rio Ipanema se uniram com o nome Fulni-ô para continuar existindo. O nome escolhido se refere ao rio, que corre nas veias dos índios e de Pernambuco. Pela geografia, sua cultura foi ameaçada há, no mínimo, três séculos antes de outros povos como os Yawalapitis do Mato Grosso. Os Fulni-ô resistiram a uma época anterior a da palavra demarcação e suas lutas ecoam nos discursos dos anciões inspirando os índios mais novos de todo o Brasil.

Conheci o golpe da santa bem longe dos livros da escola, em uma caminhada com Twlinyfoa, e começa mais ou menos assim: Um dia os Fulni-ô sairam pra pescar e debaixo de um imbuzeiro encontraram a imagem de uma santa. Levaram ela pra dentro da aldeia e isso chegou no conhecimento de alguns amigos brancos. A santa desapareceu e apareceu no mesmo lugar por três vezes. Estes brancos, levaram um padre para explicar que se tratava de um milagre de Nossa Senhora da Conceição, e que ela queria ficar alí para protegê-los. Logo, seria razoavel que se doasse um tantão de terra para construir a igreja dela.

Os índios mais velhos doaram as terras necessárias e hoje essa Igreja, de estilo pós-golperno, pode ser visitada por qualquer turista que chegue em Águas Belas como o também recomendado tour pela cidade construida em volta. Já se por ventura seu destino for conhecer a aldeia Fulni-ô, um caminho extenso até as margens da cidade deverá ser percorrido. Os Fulni-ô naturalmente precisam de seu espaço e se encolheram a cada ano, como quando uma pessoa folgada senta ao seu lado no ônibus. Golpes como esse se repetiram ao longo da história. O último registro de um, aconteceu neste ano mesmo, com as terras Guaranis no Jaraguá.

Foi conhecendo um pedaço da história Fulni-ô que entendi a razão da minha pressa não ser contemplada. Dois caminhos serão apresentados a quem nada pode saber sobre seus rituais sagrados. O primeiro se acaba em um muro e acontece quando seu amigo Fulni-ô bruscamente muda de assunto. O segundo, se trata de um labirinto infinito, onde é possível que seu amigo te acompanhe por horas a conversar, sobre coisa nenhuma.

Hoje, a tal da Santa foi incorporada na cultura Fulni-ô, assim como outras tantas práticas novas. Ela foi batizada de Yasaklane e assim os proteje. Em fevereiro depois do carnaval, uma semana inteira, que não coincide com o calendario católico da Conceição, é dela. São sete dias marcados por missas em português traduzidas simultâneamente para Yaathê. As noites de terça à sábado são marcada por cafunas, apresentações e venda de artesanato. Os comes e os fogos são responsabilidade do noiteiro do dia, que também leilõa galinhas, ovelhas e garrotes. Parte da verba arrecadada vai para a reforma da igreja, que fica dentro da aldeia. No domingo a celebração começa com o toré na presença do cacique, do pajé e acaba com uma procisão que percorre toda a aldeia. Em uma mistura com cara do nosso país.

Por Raquel, Mariana Moura e Rafael Fulni-ô.

Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

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