Obando, Teresinha e seus 5 filhos em San Isidro

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Obando, Teresinha e seus 5 filhos em San Isidro

Tempo de leitura: 6 minutos
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Obando nasceu em San isidro e viveu toda sua vida neste pequeno vilarejo com nome de santo.

Para chegar a San Isidro e subir seus 54 degraus é preciso primeiro chegar em Iruya e caminhar algumas horas pelo leito seco do Rio Grande que ocupa área razoável da Argentina. A trilha conta com pequenas quedas de água em desnível, pedras coloridas, montanhas de diferentes alturas e um silêncio valioso. Chegar é melhor ainda. Não tem nada pra fazer em San Isidro, aproveitei cada minuto raro disso.

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O vilarejo de San Isidro

San Isidro foi um Santo lavrador e assim como o patrono do vilarejo, todos os moradores plantam, colhem e vivem conectados a terra.

As 200 pessoas que moram nesta única montanha não trancam suas casas a noite, lá não existem roubos. O que sim pode acontecer com quem esquece a porta aberta é o susto de acordar com um burro dentro de casa querendo comer qualquer coisa.

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A festa de San Isidro

Todo 15 de maio é celebrado o dia do Patrono na montanha de San Isidro. Tudo começa com uma missa na catedral e segue com o jogo de futebol e o baile da noite. A dança é em roda ao som da percussão da caixa e do sopro da quena, flauta de madeira. Os mais jovens colocam uma música de festa, mas não dispensam a banda de folclore.

Agosto no norte da Argentina

A partir do dia 1 de Agosto o norte da Argentina começa a agradecer e festejar Pachamama, a Mãe Terra. Em San Isidro, no interior de Iruya, não poderia ser diferente. As tradições foram somadas com outras crenças que acabaram mudando a festa indígena original. As famílias oferecem comidas, vinho, folhas de coca, álcool, alguns dos 20 tipos de batatas e a Chicha, bebida fermentada a base de milho.

“Oferecemos pedindo para que a mesma terra que nos dê mais. Assim faziam meus avós e minha família segue fazendo”

As oferendas podem ser entregues no monte de pedras chamado Apacheta, ou diretamente em um buraco na terra. Hoje os presentes são também depositados aos pés de alguns santos da catedral. Obando acredita só em um deus, mas acompanha as festas.

O Duende de San isidro

Os mais velhos em San isidro são os guardiões das lendas da montanha. Mas a história do Duende, diferente das outras, é conhecida por todos.

O Duende de San Isidro é do tamanho de uma criança e se comporta como uma. Aparece com um sombreiro grande e fala com os moradores. Quem vai sozinho ao cemitério pode escutar um choro baixinho, provavelmente dele.

Obando mesmo nunca cruzou com o Duende de San Isidro, mas soube por conhecidos que um homem demorou horas para voltar a falar depois do susto de ter se encontrado com ele. Já sua prima Marta, que hoje vive em Iruya, sempre defendeu que o Duende não faz mal a ninguém. Quando criança Marta costumava brincar e jogar com ele pela montanha.

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A morte em San Isidro

O ponto turístico mais visitado do vilarejo é provavelmente o cemitério de San Isidro que fica no topo da montanha e conta com uma vista privilegiada.

A notícia do falecimento de algum morador entristece toda a montanha. Entre os 200 moradores, quem não é da família por sangue é por convivência. Tios, primos, noras e amigos se juntam para ofertar aos parentes mais próximos farinha, macarrão e alimentos básicos assim como bastante lenha para um grande assado de despedida, antes de subir com o corpo.

Os túmulos são enfeitados com flores de plástico muito coloridas e grande parte das sepulturas leva uma foto do falecido.

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O nascimento no vilarejo

Ter um filho em San Isidro agora é totalmente diferente de como era na época que Obando nasceu. Hoje é obrigatório que as grávidas se desloquem até um hospital para parir, mas antes, os bebês nasciam como nascem os animais. Sempre com ajuda de chás e medicinas das anciãs da montanha.

“Uma anciã que se chamava Orchata juntava sementes de pêssego para moer e preparar um café especial para as mulheres grávidas.”

Obando aprendeu muito com elas e ajudou em vários partos de San Isidro, inclusive nos cinco que Teresinha, sua mulher, teve. Teresinha comanda a hospedagem que fiquei. Ela me recebeu como uma filha e sugeriu que eu conversasse sobre San Isidro com Obando por conta de sua timidez para entrevistas.

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A força da montanha

Os maiores de 60 anos em San isidro não tomam remédios. Tomam a Yuja. A Yuja é como o mate, que por sua vez, é como o chimarrão. Mas leva uma mistura de diferentes ervas  que conferem força e saúde. Assim como seu avô fazia, Obando quer continuar fazendo.

O milho e a quinoa são a base e a força da alimentação. “Os mais antigos são mais saudáveis, eles tomam o Api, chá de milho roxo típico da região, e morrem no mínimo com 90 anos, é comum até com 110.” disse Obando.

Com o turismo as “galletitas”, bolachas e besteiras começaram a circular em San Isidro. Mas Obando já se acostumou com esse fluxo de pessoas.

“A qualidade de vida aqui melhora durante a temporada, mas antes disso não fazia falta. Batata, milho, pêssego…aqui dá de tudo. As pessoas viviam do que plantavam e não mexiam com dinheiro”

A infância em San Isidro

Os pais de Obando trabalhavam em um Engenho em Salta e por isso o deixavam sozinho com seus irmãos maiores. Muitos meninos em San Isidro passam por isso, mas apesar da ausência dos pais, Obando relembra que os professores da escola eram muito bons e que lá não faltava comida.

Assim como outros jovens de outros vilarejos depois de San isidro e de Iruya, Obando começou a trabalhar aos 12 como gente grande. Seu primeiro trabalho foi na colheita de tabaco e depois foi até o Rio Negro embalar pêssegos, peras e maçãs.

“Meu pai gostava muito de tomar vinho e por isso me faltavam as coisas”

Hoje a realidade é outra. Os pais são cobrados por órgãos e entidades. Todas as crianças precisam estar matriculadas na escola.

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Obando, Teresinha e seus 5 filhos

Obando conheceu Teresinha, mãe de seus 5 filhos porque seus pais e os pais dela trabalhavam no mesmo Engenho de cana de açúcar. Se conheceram adolescentes e com 16 anos começaram a namorar. Hoje, com 45, Obando acredita que ser feliz é estar bem de saúde e com sua família.

“Eu escolhi o nome de todos os meus filhos. Eu gosto de futebol, então são todos nomes de jogadores. Diego é o maior, Ronaldo o que vem depois, e Gabriel o último. Diego é por Maradona, Gabriel pelo Batistuta e Ronaldo, bom, Ronaldo é brasileiro, é um dos seus!”

Ri e perguntei das duas meninas, Cláudia e Edith. Obando respondeu como se fosse óbvio que Cláudia era o nome da mulher de Maradona e Edith havia sido uma italiana craque no basquete.

Perguntei também sobre seu sorriso, sempre presente durante toda nossa conversa. Ele explicou que estava lembrando de coisas que há muito tempo não lembrava e se sentia feliz por ter uma família para se orgulhar. Diferente de seu pai, Obando não toma nem uma gota de álcool.

“Uma pessoa que bebe gasta muito dinheiro enquanto outra que não, vê seus filhos crescerem. Isso é importante para mim. Quando meus filhos grandes me dão algum presente, me abraçam e me dizem “viejo” isso me dá mais força para cuidar dos outros filhos”

Completou Obando sentado na mureta de sua casa na montanha, as margens do Río Grande, em San Isidro, Iruya.

 

 

Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

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