A fogueira sagrada para os índios Fulni-ô

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A fogueira sagrada para os índios Fulni-ô

Tempo de leitura: 1 minuto
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Quando por andanças cheguei num descampado entre os chapadões de Goiás, vivi com representantes de povos indígenas de todo o Brasil por uma semana. Desta aldeia multiétnica, guardei uma história de memória, para contar quando me encontrasse junto ao fogo novamente.

Em uma noite estrelada, sob a via láctea exibida, escutei um conto sobre o significado da fogueira, enquanto uma aquecia meu rosto.

As palavras vieram de Xumayá Xya, que em Yaathê significa vento frio, e é o nome do índio Fulni-ô que eu “escolhi” sentar ao lado entre os bancos e troncos do círculo em volta da fogueira sagrada. Por acaso, pra quem acredita, ele me contou sobre a simbologia daquelas labaredas que me hipnotizam. “A fogueira são os homens, as mulheres, as crianças e os anciões. Somos toda a base de um só elemento que transmite uma força para toda a aldeia. Os índios mais velhos têm mais conhecimento, mas precisam dos índios mais novos, para realizar as coisas. Somos todos, a nosso modo, uma força só.”

Meu casaco era pouco para aquele vento e eu tremia, enquanto meus olhos de paulistana se enchiam de água, irritados com a fumaça. Voltar para minha barraca era um pensamento constante, mas decidi enfrentar a gestalt. Xumayá, de bermuda e camiseta com a naturalidade de quem tem as intempéries no nome, me batizou de Thinia, que quer dizer estrela e continuou a me iluminar.

“A madeira são os homens, que dão estrutura à aldeia. As mulheres são o fogo, que se unem a eles. Já as cinzas Thinia, são anciões, que não precisam fazer nada, mas tem a função vital de manter a chama acesa. Ah, e essa fumaça, que incomoda seus olhos…é ela que leva todos os pensamentos dos que fazem parte dessa roda para o grande espírito.”

Foi assim que Xumayá fez muito mais que me contar uma história. Universou-me. Mais tarde naquela semana, preparou o jenipapo para formar com linhas pretas precisas a figura sábia do Jabuti, em meu braço direito. Tamanha força de espírito transformou a razão das minhas lágrimas nas noites de fogueira. De fraqueza física para um transbordar de emoção. Quente.

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Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant
Raquel Cintra Pryzant, 23, é jornalista e vive em São Paulo entre suas viagens pelo mundo. Ela é autora do projeto Sola no Mundo, viagens por histórias e culturas onde compartilha entrevistas e reportagens de suas viagens. Além de produzir artigos para Worldpackers, a Raquel é colunista da Hostelworld e trabalha como Nômade Digital.

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